Friday, July 27, 2007

Promessas de Amor


TUM TUM? TUM TUM!


TUM... TUM... TUM TUM... ... ... TUM TUM TUM!


TUMTUMTUMTUMTUM!


...


... !TUM! /TUM/ T#!#U$()*%*¨(*M(*&$!!! TUM=D...


!!!


TUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUMTUM

\o/


beeeeeeeeep!
...
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"A esperança é algo assim tão especial, como uma força sobrenatural que pode salvar o mundo? Não me parece... Esperança é na verdade o aumentativo de espera", um coração ao luar.

Friday, July 20, 2007

Literatura do Fundo do Poço



“Quando uma intolerância autodirigida é alimentada, uma outra, mais geral, é disseminada nos autos da vida”, voz do além ecoando em um tom sábio.

Marcos, ou Maria, ou Transgênero, chegam em suas casas, ou apartamentos, ou mansões - alugados(as), ou comprados(as), ou alheios(as). O espelho espera impiedosamente, as maldições, as incoerências ou os raros elogios. Nos últimos meses, dias ou anos, nada foi muito memorável - e boas memórias a vida costumava ser.
Então, num súbito raiar do dia, a memória já não provinha bons frutos. Como premeditavam os tempos, chega um momento em que o chão ou o céu se abre e a queda ou tempestade se torna um alienígena perseguidor.
Adulteza?
Marcos, ou Maria, ou Transgênero, insultavam seus corpos no vidro. Refletiam aquilo que odiavam - tortura. Mudar o ódio em Amor ou qualquer essência palatável parecia outra tortura - que não dava prazer. Ele, ou ela, ou ela/ele odiavam o machismo, o feminismo ou os dois ao mesmo tempo.
A chuva caía pelo teto impenetrável - sem escapatória para o incômodo.
A água molha o espelho - ele se transforma num rio. O rio seca – agora, uma poça. Ou um poço? Sim, a água é barrenta e espirala por um buraco invisível - o buraco do fundo do poço.
A água do poço, tão funda, nunca esperaria ninguém. Porém, Marcos, ou Maria, ou Transgênero descobrem algo fundo sobre si mesmos: estão viciados em seus próprios reflexos na água barrenta.Depois disso, nada mais é límpido.

Thursday, July 19, 2007

Pequeno Pensamento de um jovem trabalhador



Latinhas de refrigerante vermelhas, com saudações ao diabo escritas nelas, rolavam pela esteira, até minhas mãos enjoadas e elétricas.
Porra de empresa. Fatura milhões e eu só ganho pouco mais de quatrocentas pilas.
Bate uma onda... Escuto Jack Johnson no meu MP3.
Não fosse por Johnson, estes dias seriam totalmente vazios... Embora que com o acompanhamento da música, tudo lembra um YouTube onde eu sou o proletário entubado.
Olhando bem... Não fosse este emprego, nem teria o MP3. Preciso este emprego, e amo a empresa pela oportunidade.
Nesta pobre confusão, meu único desejo era ter tanto dinheiro que pudesse comprar minha alforria.Saber se, afinal, posso amar ou odiar as latinhas de Coca-Cola.

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A foto é uma contribuição do site Mensagens Subliminares, sempre preocupado com a moral e boa formação de nossos filhos! Ops... Ainda não sou pai :P

Thursday, May 31, 2007

Chama Obtusa do Desejo

Quando você está bem com o mundo, você se torna mais sexy.
Quando o mundo está de bem com você, ele se torna mais sexy.


Olhar para uma pessoa e querê-la bem lhe causa excitações e lubrificações.

Quando se está bem com tudo, dá vontade de transar com o mundo inteiro.
A ressaca vem depois do gozo, os precoces e frígidos amarão menos o mundo.

Talvez, por isso, que existam os solitários e os anti-sociais.

Joliscleison

Ele estava ali, ajoelhado entre caixas de flakes e aveia, com a barriga martelando a síncope do desespero. Um dia sem comer, até bater a coragem necessária para fazer do território alheio um campo de caça.
Magrinho, chamavam-no de Galego porque descolorira os pêlos da sobrancelha, bigode e cabelo. Sobrou aquele contraste berrante de pele negra e fios de loiro não-naturais. Galego tinha corpo de jovem de quinze anos – só que poderia ter dezoito, vinte, quem sabe dos pobres malnutridos?
Ele não tinha mochila para levar os “seus” pertences: um pacote de arroz de boa qualidade, três pacotes com cereal matinal rico em vitaminas, algumas latas de bebidas em pó, chocolates cheios de fibras vegetais e toda sorte de laticínio possível. No fim, ele parecia um esqueleto carregando uma centena de compras de loja.
Galego, chamo-o assim por falta de outro nome que eu conheça,havia arrastado grandes quantidades de alimentos até o portão principal do galpão – sairia como havia entrado, aproveitando para fugir furtivamente quando um dos primeiros peões da manhã viesse sozinho colocar o caminhão para dentro.
Tudo muito fácil e seguro, e a família de Galego teria comida por pelo menos uma semana. Uma parte ele doaria para a namorada e os pais dela – não falavam muito de Amor, faltavam-lhes ensinamento para que as palavras fluíssem. No entanto, no ato de Amar, existiam poucos tão dedicados.
Se houvesse algum excesso de gêneros para a semana, não se faria de samaritano e venderia a alguém tão pobre quanto ele. Os ganhos seriam revertidos para pilhas, para pagar a conta míngua de luz, comprar alguma bebida e algumas bijuterias para sua amada. Serviria para que ele a levasse para saírem também, havia acabado de lembrar.
Sim, sim, o roubo do século estava muito fácil de ser executado. Galego sorriu... antes do tempo. Aliás, o tempo em nada lhe fora aliado em sua empreitada. Deveria entrar à noite, coletar o que fosse de interesse e partir logo cedo. No entanto, ao entrar, preferiu algum descanso primeiro. Era noite, ele tinha de agir na escuridão, mas tinha medo de escuro. “Preto com medo de escuro?”, troçavam alguns de seus companheiros e Galego se encolhia envergonhado.
Dormiu um pouco, faminto, e seu relógio barato o acordara pouco antes dos primeiros raios de sol entrarem pelos orifícios superiores das paredes laterais. Sendo o galpão bastante extenso, Galego percorreu-o até o Sol espalhar toda sua coroa pelo local.
Leu, com seu parco poder de compreensão, a marca das embalagens de cereais e outros produtos – tudo que seu poder aquisitivo não poderia adquirir, o que não gostava de admitir a si próprio.
Logo que estava tudo alumiado e brilhando como ouro, o rapaz separou os alimentos que tirava de dentro das caixas. Queria ser rápido, para que não fosse pego – importava mais estar de barriga cheia com os familiares do que sozinho e satisfeito. Alguns sacos ele já tinha posto próximos ao portão, e voltava para buscar mais.
Foi aí que os sons se espalharam pelo ar: um barulho de caminhão, vozes do lado de fora (“Vai abrir o portão que tou com as costas doendo!”) e o portão azul sendo empurrado. Galego ficou sem ação: pelo que já observara do funcionamento do galpão, o caminhão estava chegando mais cedo que o normal. Se ele corresse pra fugir, seria fácil pegá-lo. Sem saber o que fazer, ajoelhou-se entre flakes e aveia, a síncope do desespero a bater em seu coração.
O portão foi aberto, dando espaço aos raios solares. O ronco do caminhão se multiplicou, acompanhado do barulho de borracha derrapando. Logo, o som parou e o veículo estava estacionado. Galego podia ver tudo e ouvir, com a ajuda dos ecos, era mais fácil ainda.
A porta do caminhão se abriu e um homem gordo e bigodudo saiu de dentro dela. Ele tinha uma expressão severa, olhos de cão raivoso. Ele ensinaria a Galego que nem sempre as aparências enganam. Estava só ele e mais outro, um garoto três ou quatro anos mais velho que Galego, bem alimentado e robusto. Ele tinha aparência de bom moço.
Galego, que trabalhava desde cedo pela sua família era respeitado pelos seus pares. As velhas da favela o tinham um carinho que se igualavam ao de sua mãe gentil – só que ela cozinhava melhor. Os menininhos queriam imitá-lo: ele era educado, cuidadoso, carinhoso e simpático e namorava a moça mais interessante da região.
Subindo a favela com sua bicicleta, sua fama ia ficando para trás, rolando morro abaixo. Na cidade urbanizada ele tinha mil olhos sobre si. Quando passava por algum pedestre, ele segurava o que tivesse a mão com medo de que o rapaz pudesse levá-lo numa mãozada. Deixando a bicicleta, andava sendo observado e não era raro trocarem de calçada. Nesses momentos, era impossível Galego não se sentir revoltado – ainda mais por esse apelido horrível que recebia na cidade urbanizada. Não decoravam seu nome real – nome de pobre.
Na cidade, ele sempre lembrava de que não era maltratado na favela. Se ali era um servo do capital e dos patrões, na favela era coroado um dos patronos da região. Se ali o preconceito o oprimia, na favela a cor negra mostrava o quanto era diversa em idéias e visuais. A especulação imobiliária e a especulação racial, enfim.
Enfim, nervoso, Galego esgueirava-se entre as estantes em um zigue-zague silencioso. Os dois homens descarregavam o caminhão que trazia toneladas de arroz. Nenhum deles notara os alimentos próximos ao portão, porque haviam seguido direto para o fundo do galpão. Galego alcançou a comida e tentou erguê-la junto com a que trazia de trás da caixa onde estava escondido. Eram mais de dez pacotes e latas. Na ambição de levar tudo para casa, o garoto derrubou duas latas e três sacos na primeira tentativa de levantar a carga. O som metálico da queda ribombou pelo local.

BLAM! TUTUC!
Galego gelou por um instante, e, apressado, selecionou aleatoriamente alguns sacos para carregar e saiu correndo. Alertados pelos ruídos, os dois trabalhadores vieram até o portão do galpão. Logo que viu Galego, o homem mais velho ordenou: “Pegue esse safado, agora!”. E o jovem trabalhador foi atrás.
Galego, leve como uma pluma, podia correr bem rápido normalmente. Porém, estava tendo que carregar muitos objetos na mão – estava leve como uma feira de supermercado. Pouco após ter passado pelo portão, o jovem trabalhador se engalfinhou com o jovem ladrão.
Galego tentou esmurrar seu captor, mas, por mais que se esforçasse, não tinha força que desse resultado. Ele era subnutrido, enquanto o outro era forte e largo. Galego, então, deixou os pacotes de comida caírem e tentou como pôde se desvencilhar. Ao final de um pequeno embate o ladrão estava imobilizado por uma chave de braço.
“Liga pra polícia aí, seu Almeida!”, gritou ofegante o jovem trabalhador.
O seu Almeida veio balouçante e diligente. Chegando perto, Galego pôde rever os olhos de cão raivoso que aquele homem possuía. Assustado, tremia de medo do que aquele demônio poderia ser capaz de fazê-lo. Foi por essa angústia de medo que Galego, num espasmo defensivo, levantou suas pernas num chute que errou o seu Almeida. O homem roliço se assustou brevemente, e depois olhou furiosamente para o jovem delinqüente. Aproximou-se dele, sem medo de outros chutes.
E novos chutes vieram, chutes desesperados, desconexos e ignóbeis. Seu Almeida aparou a maioria deles e não ligou quando foi atingido por um ou outro – aqueles cambitos não o feriam. Depois da quinta tentativa de chute - o jovem trabalhador se esforçando para segurar Galego – Almeida não se fez de rogado: manteve-se sob a perna esquerda e deixou que sua perna direita deslizasse em um arco contra os órgãos genitais de Galego.
IAUUUUUUUUUU, um estrépito de dor que o eco fez rugido.
O jovem trabalhador estava atônito com aquela violência, só que não se atreveu a dar voz contra seu Almeida. Este olhou para o jovem trabalhar e disse: “Sempre fui um tremendo ‘pé-de-valsa’”, e emendou um chute na cabeça e outro no estômago do ladrão de comida. Movimentos sob a síncope da valsa.
“Fique atento, Geraldinho, que você vai aprender que não é necessário chamar a polícia. Garantir a segurança dos produtos da entrega conta muitos pontos para a fama com os patrões. Pegue esse vagabundo e traz ele aqui pra frente, pra essa árvore”.
Galego não podia antever mentalmente o que se sucederia com seu corpo e sua vida, entretanto seus instintos pareciam dizer alguma coisa porque ele se debatia irrequieto, como se o corredor da morte fosse chegando ao fim.
Geraldinho sentia pena do jovem em seus braços: a diferença de idade entre eles deveria ser pouca, quase nenhuma. O sangue de Galego escorria sobre os braços do seu carregador e isso influenciava ainda mais a vontade dele de não participar de ação nenhuma. No entanto, como contrariar homem bom como seu Almeida? Dera-lhe emprego e arrumara-lhe uma menina pra casar. Não, não desobedeceria a seu mestre.
“Coloca ele aqui, rente à esta arvorezinha. Tá dando problema o marginal? Deixa eu dar uma sacudida nele!”, Almeida falou e disse. Aplicou socos grosseiros contra a face de Galego, deixando-o lerdo e fora de ação. Sangue empapava seu rosto que começava a perder sua forma – o olho direito estava inchado.
Com o ladrãozinho à nocaute, puderam encostá-lo na árvore mais facilmente – mas não sem esforço, porque pesava mais por não se sustentar por si só. Geraldinho empurrou o corpo para a árvore e Almeida fez contrapeso. “Geraldinho, corra até o caminhão e pegue a corda grossa que deixo na boléia...”. Almeida ficou segurando o corpo fraco de Galego até Geraldinho voltar.
Neste ponto, Galego tinha as visões mais fascinantes e surreais que jamais tivera em vida. Não via estrelas, nem via o mundo girando. Sua visão apagava e acendia, e cada vez que acendia ele via uma cachoeira de sangue caindo. O chão parecia longe, porque ele não sentia nada abaixo da barriga. Na sua frente havia uma criatura esquisita, redonda. Ela babava de fúria.
Geraldinho voltou com a corda. Havia uma academia de musculação em frente ao galpão e ela acabara de abrir. Os primeiros viciados da manhã chegavam, quase todos homens e imensos. Eles se olhavam e admiravam os músculos que cultivavam, elogiando-se e contraelogiando-se. O jovem trabalhador entregou a corda ao seu Almeida e recebeu uma ordem de volta: “Passe a corda derredor deste marginal!”. Assim Geraldinho fez.
Como a corda era longa, três voltas tiveram de ser dadas. “Amarre bem, até sangrar”, recomendou Almeida, e para Geraldinho um pedido do chefe era uma ordem. Galego despencava-se sobre si mesmo, sem poder cair e sem ficar em pé direito. Almeida deu a bochecha esquerda para o jovem: “Ei, dá um soquinho aqui, galeguinho. Vamos lá, eu não revidarei se me acertar”.
Galego nem pensava em nada. Em sua fraqueza e em suas visões sanguíneas ele apenas pensava em um pouco de comida. Sua barriga estava reclamando de fome há algum tempo. O que aconteceu então depois que seu Almeida lhe machucou o estômago? O jovem sentiu como se o chute expulsara alguma energia alimentar que ainda estivesse ali.
Seu Almeida parabenizou Geraldinho: o mau elemento estava fixo como uma pedra.
“Agora, para que eu veja que você é homem formado e justo, mostre aí sua proteção pelo homem de bem e aplique um murrinho no peito do rapaz!”. Aí, o rapaz que sorria amarelo pelas congratulações, voltou a sua cor normal. Era forte e nunca batera em ninguém, nem tinha intenção de fazê-lo. “Vamos, Geraldo! É só dar um pau nele. Não é macho, não?”. A esta sentença certos homens não conseguiam fugir. Geraldo era um destes homens.
SOC!!
Primeiro soco, a decisão foi feita na fúria e arrebentou como uma onda no mar bravio. Dois dentes caíram.
POW!
“Isto! Isto!”, sorria seu Almeida.
TUNK!
Geraldinho estava descontrolado e não conseguiu evitar aplicar um chute.
O quarto golpe de Geraldinho foi desencorajado por seu Almeida. “Ele está tendo o que merece, só que isto não é tudo. Em Pernambuco, a gente ensinava direito a estes escroques como se portar... Deixa ele descansar um pouco e retomar os sentidos. Os outros caminhões já estão chegando”.

***

Meninos que passaram por ali, nos momentos descritos até aqui, viram Galego sofrendo maus tratos. Um deles ligou pra polícia do seu celular.
Secretária: Alô!
Menino: Tem um homem sendo espancado aqui!
Secretária: Ok, quem está o batendo?
Menino: Uns peões de um armazém aqui próximo. Chamavam o homem de marginal, delinqüente, parece que foi uma tentativa de assalto.
Secretária: Ah, então o elemento está dominado?
Menino: A senhora não entendeu... Ele está sendo linchado!!!
Secretária: Espero que não apareça nenhum destes repórteres metidos à besta, que tomam as dores por um delinqüente. Muito cômodo ele já estar sob controle porque a maioria das viaturas está ocupada. Demorará para que uma chegue aí.
Menino: Minha senhora... o rapaz está sangrando, sendo esmurrado além da conta porque está indefeso!! Não vai fazer nada?
Secretária: Já lhe expliquei a situação. Se quiser, faça algo. Um beijo e tchau!
O telefone foi desligado. Os garotos se olharam e discutiram uma ação a ser tomada. Só discutiram...


***

Galego perdeu a consciência e a retomou logo que o sol, já forte no céu, queimou-lhe a pele. Mal teve tempo de abrir os olhos e um punho se abateu sobre sua visão. Um som abafado de rachadura e mais dois dentes ao chão, vomitados com muito sangue.
“Acordou, safado? Sabe quem eu sou?”.
Pela viela ocular, Galego viu um homem de cinqüenta anos, cabelos brancos e fora de forma. Ele tinha sobrancelhas grossas, papada dupla e coçava a mão que estava machucada. Esmurrar tão forte não era saudável pra homem daquela idade.
“Eu... não sei quem é você, não!”, se esforçou em responder.
“Pra começar, não me chame de você! Para você sou senhor, pois sou dono desse galpão e desse terreno, inclusive da árvore onde está preso!”. Galego observou a área enquanto o cinqüentão falava e se surpreendeu. Cerca de vinte e cinco homens, quase todos negros ou amorenados, que deviam trabalhar no galpão. Pela natureza do trabalho eram todos fortes e bem constituídos.
“Você, vindo aqui se apropriar dos bens transportados até meu galpão, está prejudicando muitas outras pessoas, inclusive famílias necessitadas! Sabe o que ladrõezinhos como você necessitam para que nunca mais roubem?”, interrogava o chefão da área, que vendo não haver resposta completou, “Vocês precisam da forca!!! Mas como esta porcaria dessa constituição não me deixa te matar legalmente, pelo menos sua coragem e honra matarei. Seu Almeida, venha cá.”
Seu Almeida chegou com um pedaço de pau largo e fino na mão. “Pois não, chefe?”, ele perguntou com ares sonsos. “Faça aquilo que pretendia, com muito jeitinho, tá?”, e seu Almeida assentiu feliz.
Galego gelou pela segunda vez no dia. Pensou em Jesus Cristo, na imagem que via dele crucificado, chicoteado e ensangüentado. Imaginava: se ele não fosse santo, não agüentaria tanto castigo. E Galego pressentia, ao ver aqueles homenzarrões estalando os punhos e vociferando como cachorros, que teria de ser santo pelos próximos minutos seguintes.
Seu Almeida, grande líder da violência, girou o pedaço de pau e esquartejou o Jesus na mente de Galego.
***

As senhoras da casa ao lado da academia de musculação escutavam os barulhos vindos da rua. Eram duas delas, uma baixinha e rechonchuda, a outra alta e também rechonchuda. Elas se moviam sem parar pela cozinha. Os gritos de dor e de pedido de socorro as incomodavam bastante, mas não eram o que mais as afligiam. Elas estavam preocupadas com a família.
“Ai, Luzia, você nem sabe... Meu menino foi ver o tal do ladrão de cereais e ainda não voltou. Estão batendo no pobre diabo agora e meu filho está lá. Se o sacripanta decora o rosto de meu filho é bem capaz de querer vingança!”, era a baixinha.
“Iolanda, mulher, e o Tiago lá também está. A gente já vive num mundo cheio de violência que temer pela vida dos nossos pequenos é uma constante...”
“Deus abençoe que eles sejam protegidos, Luzia”
- SOCORRROOO!!! – gritava Galego lá de fora!
“Ai, Iolanda, que este pobre diabo seja calado de uma vez!”

***

Dois socos, dois chutes ou uma tacada. Estas foram as escolhas estabelecidas por Almeida para controlar a fila de justiceiros. A esta altura, cada um dos homens tinha aplicado seu golpe e Galego estava desconjunturado – embora consciente. Cada vez que ele chegava perto de apagar traziam água e cheiros fortes para lhe despertar.
Os dentes da frente estavam despedaçados, alguns da lateral estavam espalhados pelo chão. A camisa de Galego se rasgou e agora estava já no chão, deixando a mostra a barriga cheia de hematomas do rapaz. As pernas se dobravam como mortas e não atingiam o solo. A posição era das mais estressantes.
Todos se preparavam para a repetição dos seus atos de punição. As pessoas passavam na rua e não perguntavam muito o que ocorria. Algumas pessoas paravam para olhar, outras se juntavam à fila do massacre. Tudo parecia natural – afinal, era só sangue sendo derramado e ossos sendo retorcidos.
O pessoal da academia de musculação até então só observava. Vendo pessoas entrando na fila para esmurrar, socar e bater, eles resolveram dar seu apoio ao movimento. Nada inquietava mais aquela comunidade de cidadãos do que o elemento caótico e desonrado que desrespeitava o conceito de trabalho suado. Ainda mais sendo o violentado um jovem, que podia estar trabalhando, nem que fosse capinando ou qualquer serviço igualmente ridículo.
Quem mais se deleitava com a cena era o chefe cinqüentão, que bebia uísque e via os peões lutarem avidamente para proteger os bens de gente mais rica que eles e que os dominava tão bem. Tudo estava interessante, mas o homem tinha idéias para apimentar a situação. Idéias que envolviam os musculosos recém-chegados.
“Aproximem-se minhas queridas pessoas, quer...”. “SOCORROOO!!!, gulp!, por fav... or...”. O pedido de ajuda de Galego cortara a proposta que o cinqüentão faria. Isso irritara o velho homem. “Procurem colocar alguma música aí!”, acenou para umas velhas da sua família, “Enquanto isso, quero dois dos mais fortes, um da academia e outro do galpão, vamos ter uma competição”. Os homens ali presentes se alvoroçaram: quem teria o direito de ser o paladino da justiça? Um ritmo brega começou a tocar em uma caixa de som. “Vale cem reais, eim?”, atiçou o rico homem com uísque na mão. O burburinho se elevou e só foi terminado quando uma pessoa de cada grupo se impôs sobre o restante, na base da força. Dois homens, um robusto e um aparentemente magro se apresentaram.
Galego via dois leões à sua frente, prontos para lhe devorar. A situação de humilhação despertara sua raiva com intensidade jamais vista. Queria se vingar de todos, matar cada um daqueles carrascos e com requintes de crueldade. Aqueles homens nunca seriam páreos contra um revólver – então Galego, um só homem, poderia ser maior que todos eles juntos.
“Bem, abram a boca do infeliz”, ordenou o ciqüentão a uns peões e estes assim o fizeram. Ele olhou bem e pediu um alicate que logo foi providenciado. Sem dó, meteu o alicate boca adentro e trouxe um dos dentes incrustadíssimos na gengiva, um dos que ficam mais ao fundo da boca. “Agora tem a mesma quantidade de dentes sobrando de um lado e de outro... Vamos ver, num murro, quem derruba mais? Que tal?”. Todos os vibraram e começaram as apostas.

***

Um menininho acompanhava seu velho pai até uma loja. No caminho, vê uma pobre alma sendo surrada até o espírito. “Papai, por que fazem ele sofrer tanto?”. O pai, um senhor austero e crédulo nas instituições sociais fala: “Isto é o que acontece para menino curioso e perguntador quando mente para os pais”.
O menino tremeu sem parar – deixara um dos chapéus do pai cair num buraco e mentira dizendo que não sabia onde tinha colocado.

***

O homem da academia vencera a disputa, mas agora todos venciam juntos, colocando os ossos de Galego para fora dos lugares onde deveriam repousar. Ele estava livre das grossas cordas, só que estava no centro de uma roda de torturadores. Ali, por cinco minutos, sentiu a cama do Inferno. Estava quase fora da realidade quando uma dor diferente obrigara-o a urrar. Um homem que devia beirar os sessenta anos lhe espetava agulhas sob a unha.
“Aprendi isto na pele, nos porões de tortura. Lutei para que a injustiça não mais ocorresse, e aí aparece um jovenzinho como tu para demonstrar que minha luta foi em vão... ora!”
Após ter disto isso, o velhinho foi ovacionado e novas ondas de ataque levaram Galego a sofrer terríveis agruras.
O jovem humilhado tentava manter alguma sanidade – sem sua consciência e autocontrole acabaria por eliminar a memória daquelas pessoas ali presentes. Apesar de tanta violência e revolta, ele sentia que no fundo ele que era o errado em toda a situação. Afinal, ele que tivera a idéia do assalto. Tentou pensar em sua amada, que ficara preocupada quando ele saíra. Ela teria de beijar um rostinho amassado desse momento em diante.
IUUUUUUUNNNNN!!!!!
Sirenes policias. O grupo ao redor de Galego dispersou e ele pôde sorrir ao ver policiais discutindo algo com os peões e com o cinqüentão. Pareciam estar conversando seriamente e se entendendo muito bem. Uns policiais puxaram Galego pelo braço e o levaram até a viatura, ele arrastando os joelhos. Dois policiais iam na frente, outro atrás com Galego. Este que acompanhava o rapaz comunicou: “Deixaram pouco para nós...”.
Galego nunca ficara tão feliz em ver policiais...

***

Geraldinho nunca mais conseguira esquecer aquele dia de descoberta. Poucos vizinhos sentiram a bestialidade de toda a cena. Na verdade, grande parte da comunidade da região estava bem feliz e só fez um comentário depois que a viatura se mandou: “Este nunca mais rouba por aqui”.

Thursday, May 10, 2007

O escritor perdido escrevendo


Meus personagens se tornaram frios para mim - já não preciso da companhia deles. E escritor que escreve sem a necessidade dos seus escritos pode se considerar a meio caminho de ter de velar pela sua própria Literatura; a minha está quase se provando natimorta.
Alguns protagonistas meus me fizeram cair de paixões e, de fato, tê-los como companhia - às vezes única companhia física (isso mesmo, física!). E, eu passava a sê-los e pensar dentro de seus cérebros. Todo escritor deve fazer assim, para que os conceitos de seus grandes personagens possam fluir. Quando você sentir que defeca, transa e come como algum deles, saberá que se tornou ele. Os pensamentos parecidos vêm com o tempo... Se o personagem é gay e você até então se achava hetero, descobrirá incrível prazer em observar os músculos enrijecidos dos pedreiros na construção vizinha... E se este mesmo pedreiro adentra as portas do seu lar, o auto-controle deve ser exercido para o bem-estar social.
Nunca entrei radicalmente em certos tipos de personagem. Exemplos? Nunca gostaria de ter um pensamento forte de direita, comprometeria minhas amizades e eu seria excluído de minha roda de amigos. Uma vez quase fui linchado em praça pública por tentar mostrar lados positivos em uma ditadura. Impressionante como as pessoas podem reagir à simples menção da palavrinha que começa com D. Tive de deixar o personagem mal-desenvolvido e preferi matá-lo mesmo.
Apesar de mutável, sou discreto. Sou mais de mudar pormenores, intimidades e assuntos internos. Assim, sou sempre o mesmo para a grande massa da sociedade.
Pois bem, tudo bem explicadinho sobre minha maneira de lidar com os seres que crio, ou que me criam, só que até pouco essa relação havia sido de amor e ódio, de companheirismo, de cio, de necessidade extrema... De uns temos para cá a nesga de luz findou, a réstia esmaeceu, a lâmpada rompeu, o sebo da vela derreteu e minha mutabilidade estacionou no tempo...
A vida agitada, cheia de metamorfoses, acalmou-se como um riozinho pacato de uma vila feliz no meio do nada. Quando pego uma folha para escrever, não há prazer, nem tempo, para ser o livro...
Minha alegria em escrever tem diminuído, só que não minha fama, que tem estado em estável crescimento. Tinha ganhado prêmios. O prêmio Tartaruga, por melhor Livro Infantil lido por Adultos; o prêmio da União de Leitores de Escolas Públicas como Escritor Revelação, quando lancei meu primeiro livro de sucesso; e o prêmio dos Acadêmicos do Norte, pelo livro com melhor título - A Pleura Machadiana em Aforismos Aliterados sem Ditongos e sem Hiatos.
Como visto: literatura declinante, reconhecimento ímpar.
Meus últimos livros seguiam a marca da repetição e da técnica comercial de escrita. Um verdadeiro leitor não veria espírito no que eu fazia. Podia ver, no máximo, uma ou outra boa piada, algumas idéias geniais e revolucionárias e só. Tudo do ponto de vista estético, nada criativo. E, ainda assim, os jornais diziam: "Um dos mais originais escritores do país - seu estilo é irreproduzível". Ah, os críticos podiam não saber me copiar, só que eu apenas imitava a mim mesmo.
Já ouvi certas pessoas falarem que não existe mais nada de novo, que tudo é copiado. Discordo veementemente dessas afirmações, várias coisas das quais escrevi foram diferentes de tudo que havia lido e presenciado. Claro que muitas características estão presentes em várias obras - o que se pode fazer se nós seres humanos somos tão semelhantes? Só que, do outro lado da discussão, há os que suprimem as barreiras do aceitável: caso dos meus críticos. Cada linha, cada parágrafo e até o alfabeto romano é considerado "altamente inventivo" quando eu escrevo. Puro exagero de pessoas sem fé em Deus.
Para se ter uma idéia do panorama, tenho agido assim com os personagens de meus livros, contos, novelas, etc. :
a) Histórico
Personagem masculino: general ou desbravador, belo e destemido. Se for para ser fraco, que seja um escritor ou pintor, inteligente, bonito e sensível.
Personagem feminina: Delicada, frágil, gostosa, seios fartos, transa como uma puta e age como um anjo. Envolve-se com o personagem masculino. Caso de ser diferente, é uma feminista de atitude que se apaixona pelo homem que lhe dá dignidade e mostra o quanto é imatura em sua luta. Termina apagada e só é citada no beijo final.
b) Cyberpunk
Personagem masculino: Nerd inteligente e bom de pontaria. Não precisa ter músculos para lutar contra mechs gigantes. Gosta de espalhar vírus via internet - que está em todas as casas, aparelhos e pessoas.
Personagem feminina: Gosta de usar dois revólveres, sabe socar, morder, cuspir e decepar partes do corpo. É pouco ligada ao mundo mecânico. Seu gênio selvagem só é amansado pelo homem protagonista.
c)Drama adolescente
Personagem bonito e pegador: Boa praça, divertido, gente boa. Ninguém tem nada contra ele, a não ser aquela galera que tentou traçar a loiraça da escola e se deu mal. Querem bater no personagem, só que ele é tão chegado que ficam sem jeito.
Loiraça gostosa: Incapaz de pensamentos complexos, tem trauma por causa do pai ausente e dos meninos que só relevam sua aparência física. Cai de encantos pelo personagem bonito e pegador, que disfarça mil amores para levá-la para cama e que termina com ela, para ficar de bom agrado.
Nerd que não pega ninguém: Joga videogame, se masturba, é a salvação para as notas dos descerebrados da escola. Ele escreve poesia, ouve boa música e se dedica às suas paixões femininas. Sua primeira vez é com a gordinha que usa aparelho.
Gordinha com aparelho: Transa com o Nerd e é xingada por todos.
Personagem negro: Quando tem um personagem negro, ele faz piadas burras, relembra a todo o momento que é negro e que vem de um bairro perigoso. Pode morrer sem perdas para a narrativa.

E estes são três exemplos da minha linha "criativa" nos últimos dois anos. Amontoado maciço de clichês. O que faço para não sair tão ralo assim é uma mudar uma ou outra coisa:
a) No romance histórico eu mostro uma visão diferente dos fatos, lembrando que a História é uma ciência inexata; o personagem principal tem arma exótica, diferente da espada; a dama trai o personagem principal e demonstra possuir desejo sexual.
b) O nerd pode gostar de algo mais analógico, como colecionar pedrinhas e brilhantes; a dark woman perde as pernas e passar a operar atrás de um computador, obrigada a superar o trauma; um dos dois personagens principais é um andróide e surge o conflito homemXmáquina; trama amoroso homossexual.
c) O boa praça é sensível e procura, loucamente, ser monogâmico; a loiraça gostosa possui estrias sem fim e uma cicatriz de cirurgia, por isso foge do pau como anoréxico foge do slogan "É impossível comer um só"; o nerd cria uma poção mágica e se torna o melhor futebolista da escola; a gordinha nerd se descobre gostosa para o padrão "norte-americano que come no McDonald's" e vai fazer filmes pornôs no exterior; o negro recita Shakespeare fluentemente.

Daí parte a falsa idéia de "mente altamente inventiva" ou a de "um escritor originalista".

O que fez minha literatura decrepitar a tal nível?
Encontrei a felicidade, aquela que destrói a solidão. Agora, tenho quem me ame, me abrace e dê carinho. Ao sair de casa, só dou risada, bebo feliz, fumo sem preocupações de saúde. Tá tudo tão ótimo como nunca foi. Meus livros vendendo bem, me garantem que eu tenha dinheiro de sobra para gastar feliz, coisa a qual não estou acostumado. Se vejo um pobre, ao invés de padecer com sua situação, dou-lhe dinheiro em troca de uma música, anedota ou história. Se vejo uma comunidade carente, procuro ONGs para ajudá-la - não existindo, eu próprio crio uma. Quando estou entediado, ligo para um dos meus vários amigos e vou beber, transar, dançar, ter prazer. Assim não me sobra tempo para angústia. E sem angústia não há indagação, e sem indagação falta hipóteses, faltando hipóteses c'est fini criatividade.
Na frente do computador, os contatos do MSN não me deixam escrever direito.
A angústia só sobreveio quando notei minha literatura definhando. Por isso estou escrevendo isto. Dou aleluia por estar fazendo literatura de verdade após dois anos jogados fora!

Escreverei mal para sempre?

Sei que pode parecer egoísmo se importar mais com a realização própria que com o bem-estar alheio, só que sou escritor, poxa! Não é me dado outras opções: preciso que um desastre aconteça e essa aura de boa sorte se esvaia.
Preciso de melancolia, falta de perspectiva e medo para voltar a manusear o teclado do computador direito. Que algum familiar meu morra ou que eu arrume uma namorada que me traia, faça-me sofrer, iluda-me, só que dê de volta minha alma de escritor. Vale a pena tudo isso, toda a dor, para que se possa progredir com a escrita que é a maior paixão de quem escreve.
Uma epidemiazinha seria uma boa agora. Uma literatura em cima de morte contagiosa, secreta e furtiva... Uma metáfora para os estranhos mecanismos do destino. Será um best-seller digno.

Sim, admito, preciso da companhia de meus personagens de volta - não se abandona os amigos assim! Quero que meu cérebro se transforme em algo diferente a cada semana.
Não quero continuar nessa felicidade torturante, nessa alegria besta, nonsense e emburrecedora.
Cogito voltar a minha roupa de direitista e discurso extremista... Levar uns sopapos da esquerda é uma maneira fácil de se dar um pouco mal na vida...

Saturday, March 17, 2007

A morte da dama fatal

Mesmo morta, ela tinha o perfume que os anjos deviam ter.
Minha garota estava no chão, vestida para matar, com sua cinta-liga, corsete e lingerie preta habitual. Sua pele branca, entrelaçada com o negro das roupas, era sufocante de se ver – sua beleza ofuscara minha visão por todos os anos que passamos juntos.
Seu corpo não estava tão branco quanto eu imaginava... e isto me sufocava ainda mais...
Algum animal carniceiro mordera-a, deixando roxo e amarelo seu pescoço, seus seios, sua barriga... e bem acima do umbigo deixara sua marca, dois chifres não-pontiagudos, parecidos com raios. Aquele era o símbolo de Agat, o Demônio da Carne.
Peguei minha katana e me dirigi à porta, e antes de atravessá-la, desabei. Lágrimas, as recorrentes lágrimas do desespero. Olhei para trás e vi aquele corpo que já fora meu e há pouco fora de outro. Como pôde ela ter morrido sem que eu nem visse nada? Havia três semanas que nós não transávamos e aquele monstro usufruíra o corpo prosolar dela... Como sempre, sinto minha tensão sexual aumentar, só de olhar minha mulher de ouro... Mesmo morta, só desejo ir para a cama com ela... Mas não terei mais chances de tê-la, de ter aquilo de mais secreto, íntimo e prazeroso que tivemos... Agat merecia a morte.
Andando pelas ruas da cidade cinza, minha alma pesou como uma bigorna. Pessoas se apertavam, caçando cérebros, caçando prazeres, caçando sexo. Ninguém procurava a verdadeira emoção. Eram todas pessoas com medo do verdadeiro sentimento. Eu, que conhecera a fundo o Amor, sabia daquele Vazio que proliferava entre os seres urbanos.
Eu caminhava, procurava Agat, só que não sabia onde ele morava. Sentei na mesa de um bar, eu gostaria de saber o que fazer. Lembrar do meu anjo só cortava e recortava meu pobre coração... Apesar dos pesares do nosso relacionamento, minhas inconstâncias, nossas incompatibilidades e seus desejos avançados, fora um bom relacionamento. Pena, ela ter morrido sem que me desculpasse de meus erros e sem que transássemos pela última vez.
Já começava a imaginar Agat a dominando, provavelmente ela tinha até gostado, até a morte. Então, concentrei-me e senti sono. Resolvi adormecer os sentidos.
Eu estava voando sobre um dragão chinês e entrei em um palácio japonês com decoração coreana. O dragão chorava, dizia-me que morreria através do sonho de alguém. Não entendi o que ele quis dizer mas me padeci dele. Eu estava num grande salão, o dragão me deixou em frente a um portal que se estendia em um correr e me falou: “Siga em frente. Agat o espera”. Voltei-me, eu olhava o horizonte do corredor, e esbravejei: “Servo de Agat, como ousas...?”. O dragão já tinha ido embora.
Adentrei o corredor, iluminado por archotes, e sentia a respiração de Agat ao fundo. Nas laterais do corredor estavam pintados demônios orientais, xingamentos ocidentais e cenas do inferno. Tremendo, de raiva, vingança e apreensão, atingi o final do corredor.
Entrei em um apartamento típico do hemisfério oeste do globo. Estava numa sala onde não havia mobília, nem luz elétrica, apenas uma janela por onde entrava o luar, fraco. De repente, um raio desceu os céus e iluminou brevemente o ambiente e eu vi uma forma disforme no canto da sala. Ela pareceu possuir chifres.
“Agat!!! Vim me vingar pelo que fez com minha mulher! Vou te matar!”
A voz cavernosa bramiu: “Se queres ser ouvido, falas mais lentamente, guerreiro!”
Meu ponto fraco, aquele monstro me provocava, enquanto rangia sua dentição e preparava o bote. Expus-me a seu plano, lançando-me contra ele, sem medo, com ousadia. A katana suingou, apalpando o ar, mordendo o veludo e errando desastrosamente o alvo dela. Como tudo que passava desde a morte de minha amada, eu só enxergava sombras e mais sombras, imateriais e inexatas no espaço. Elas pareciam reflexos do que eu não conseguia aceitar.
Após bailar rodeado por fulgurantes sombras, percebi-me tonto e tentei me apoiar na parede. E então, minha coluna rachou como concreto e eu senti o peso dos anos e das culpas. Como sempre, um problema fisga o outro, e meus dentes despencaram, minha orelha desatinou a ruir, meu joelho cedeu e eu caí de joelhos. Agat gargalhou, e archotes queimaram, um a um em uma longa fileira de tochas. Cada fonte de luz revelava um pouco de meu inimigo: primeiro seus joelhos e pernas, estava ajoelhado; seus braços e mãos, como as de humano; cabelo...?!?!? Nenhum chifre; torso, estava de jeans e camisa preta como eu; rosto...
CHOQUE
Era meu rosto, eu também estava ajoelhado, com minha katana de lado.
“Ora, és o Demônio da Carne, assumir formas não é incomum para tu!”
Agat estava impassível. Gritei e tentei me levantar, mas minha carcaça debilitada era uma estátua. O terrível ser a minha frente sorriu com desdém – e droga, eu não conseguia ver seus olhos, apenas buracos negros. Ele devia ter rido, enquanto comia minha mulher!
A espada, a outra katana semelhante a minha, foi empunhada contra seu próprio dono. Harakiri...
SLASH!!!
Sangue em conta-gotas deslizou pela camisa preta e atingiu o chão. E o solo, como uma chapa quente, fervilhava o líquido vermelho e o fazia tomar forma: o de uma mulher, usava lingerie, era enfim minha garota. Cada novo traço me mostrava que minha vingança estava completa e a alma dela estava livre.
O último traço do corpo completou o desenho, porém a tinta sangrenta não parou...
Agat, ou eu mesmo, olhou em meus olhos, fitei seus buracos negros, enquanto ouvia: “Esta é a cidade dos pecados... dos seus pecados!!!”
E uma palavra foi escrita sobre o corpo vermelho

DESGOSTO

Ah, minha pobre mulher... Fui eu quem matou nosso Amor?

Suspirei sete vezes:

O primeiro suspiro: A negação

Como... pude? Isto é uma grande mentira... Eu nunca faria isto!

O segundo suspiro: A raiva

O que deu de errado? Meus erros, meus erros idiotas... Ela também não se comunicava comigo! Que porra de casal fomos?

O terceiro suspiro: A barganha

Pode ser uma artimanha de Agat, não? Afinal, mesmo errando, eu a amei... E o Amor é sempre maior que qualquer outra coisa...

O quarto suspiro: A depressão
Viver? Como viver sem ela? Morrer? Por que morrer se minha honra nunca poderá ser lavada?

O quinto suspiro: A aceitação

Eu... falhei... Fiz o que pude para amá-la e aqui me encontro... sozinho...

O sexto suspiro o trouxe de volta ao bar da cidade cinza.

O sétimo suspiro estirpou sua existência.

Monday, March 12, 2007

Só dá merda quando você se diverte pelado

Cabeça quente. Meu coração devia estar explodindo num TUM TUM TUM febril.
A vida perdeu toda a solidez, é agora um líquido liberando vapores - idéias e conceitos morais.
Sombras moveram-se sob a ausência de luz - sombras sem sentido de existir, ainda assim sombras. Um homem de batina - antes fosse uma mulher, veio com um chicote nas mãos. Ele surgiu de um redemoinho na parede, todo feito de sombra. Só eu o vi.
Pelados, estavam todos os filhos da revolução, sementes da liberdade. E o anti-libertário estava ali, e só eu o notava. Eu, nu como todos os outros, mas talvez ainda mais nu - sem armas.
A apatia daquele ser, seu olho que piscava amarelo, sua mente telecinética. Meu corpo fora tragado pelo seu pensamento e jogado ao chão - BLAM!.
Aranha na teia, aranha na teia, teia na aranha... O goblin maligno vindo em minha direção, uma abóbora sorridente.
Solidão debaixo da água encanada - BLUB, BLUB, TUM, TUM.
Hino da Liberdade - ARGHHH, ARHHH, OOOHH.
Amnésia temporariamente removida. FLASH! Uma luz fraca e azul no meu rosto - pela eternidade de uma tarde que não voltará mais. Ao lado do Homem De Batina, estava eu mesmo, embrutecido e mais concurda, forçando para baixo a cabeça de outro eu, só que este minha versão criança vestido de palhaço e com um junco cheio de sabão - triste e oprimido.
Descendo do teto, imaterial o espírito fantasma, o Caos Voador. Eu não podia vê-lo, nem escutá-lo. Falei com ele, o cuspi ao falar, mas ele se abria em buracos e as ondas sonoras passavam por eles direto pro ralo.
De dentro da lata de lixo, um rosto familiar saltou como um fantoche de uma caixa de surpresas. O rosto ficava rindo, a risada de um buttons em forma de smile - sem graça real, de tom acusatório, denunciador dos 'pecados'.
Por último, havia uma mulher venenosa, à minha imagem e semelhança, que sorria e me pedia devoção.

Em uma marcha imperiosa, o Sexteto veio, exalando gases, fazendo sinais de silêncio - SHHH!!!, preparados para devorar minha mente. E ele estava a apenas um centímetro, aspas formavam uma cruz na minha testa...
CLAK!
Uma mulher maravilhosa - uma das poucas, entrou na minha mente, e expulsou o sexteto, não sem dificuldades. E ela era apenas uma humana...
Cada um dos vilões foram expulsos, só que cada um deles se cortou nas paredes e portas e deixou um pedaço simbionte de si mesmo. Este pedaço se mesclou à minha carne.

Carrego dentro de mim este monstro, um incômodo explosivo. Como fazem os heróis, eu poderia me esconder para poupar o mundo da minha presença... Só que isto é bobagem! Vago entre os normais, e não sei até quando suportarei minha condição mutante...
SUSPIRO
SOMBRAS DENTRO DE SOMBRAS

Friday, January 05, 2007

Perdendo peso - Um Milagre Natalino

Subiu na balança e fechou os olhos, com medo de ver o resultado que veria no mostrador próximo a seus pés. Tremia de nervoso, embora uma pontinha de esperança o acalmasse, pois, lembrava bem, trabalhara arduamente até este fatídico dia. E ia se lembrando de cada uma das provações das últimas semanas...

Tudo começou com uma estranha resolução da ONU, aprovada pela OMS, mas que era ligada à OMC e que, pra variar, só foi levada em frente por causa de interesses norte-americanos. A tal resolução era um fator limitante à proliferação da obesidade... dos papais-noéis! Nos salões de discussão da ONU houve muita polêmica entre os países cristãos, sendo que a maioria não aceitava tal proposta. “Ora, teremos agora um Papai Noel atleta, halterofilista e pegador? Isto é uma perversão do símbolo infantil!”, protestou o representante brasileiro. “E as típicas roupas pomposas que nós fazemos? Todo nosso luxo vai pelos ares. Oh, ma coquette!”, reclamou o representante francês. “Daqui a pouco vão proibir o Papai Noel de usar renas, por causa do direito dos animais, e de andar com duendes, porque eles vivem em óbvio regime de escravidão”, foi a vez do representante espanhol. E os outros insatisfeitos criticaram, se exacerbaram, espernearam e discursaram como se fossem os donos da verdade... até a chegada dos representantes da Inglaterra e dos Estados Unidos, quando todos se calaram. O segundo tirou o paletó e deu ao primeiro para segurar, se dirigiu a um palanque que tinha ali perto, sorriu muito e falou eloqüente: “Olá caros colegas! Parece que está havendo uma pequena confusão aqui, my friends. Deixem-me explicar porque essa resolução tem de ser aprovada. Pesquisas deste ano confirmam que 60% das crianças americanas estão acima do peso em níveis mórbidos. Bastante, não? O Natal está chegando aí e as crianças entupirão os shoppings para comprar seus presentes, e sentar no colo do Papai Noel. Eles o chamam de bom velhinho, ou seja, ele é um exemplo para os meninos que o procuram. E ele é obeso, então o que podemos esperar? Mais crianças gordas!”. O norte-americano convenceu poucos. “Se elas estão mais gordas é por causa dos seus hambúrgueres gigantes e refrigerantes homéricos. Sou contra isso! Sou contra a estratégia norte-americana!”, gritou o representante da Bolívia, ao que outros se uniram em coro. O americano ficou olhando, analisando calmamente a situação, senhor de toda aquela discussão. Quando se fez algum silêncio ele voltou a falar, resoluto: “Se o Papai Noel não emagrecer, faremos sanções comerciais a todos os países que conosco comercializam”. Todos se calaram de repente. O norte-americano sorriu :D


Desde então, ficou decidido que para ser Papai Noel era necessário ser magro. A Associação de Papais Noéis Que Fazem Bico No Natal (APNBN) prometeu uma greve, mas como não eram assalariados desistiram antes mesmo de haver uma reunião entre as partes interessadas. Não teve jeito, naquele final de ano as academias de todo mundo cristão ou de tradição capitalista estadunidense foram inundadas de bons velhinhos.
Um desses bons velhinhos foi o feirense Lindalvo. Ele era o famoso Papai Noel da Feira de Santana, que havia descido de helicóptero e tudo no Shopping Iguatemi. Ele começara sua carreira no Shopping Jomafa e em pouco mais de dez anos de profissão contabilizara cerca de dez mil crianças beijadas. Muitas pessoas que tiraram fotos quando criancinhas voltavam sempre ao Iguatemi para vê-lo, e alguns sentavam novamente em seu colinho fofo. Neste ano, seu colinho deixaria de ser fofo.
Lindalvo resignava-se muito fácil, embora chorasse escondido todas as noites. Quando lhe veio a notícia que deveria emagrecer, custou pouco a acreditar, e no dia seguinte já estava na malhação. Ele estava a dois meses do Natal e precisava diminuir 20% do seu peso.
Se embananou todo. Na primeira andada na esteira, não suportou a velocidade imperiosa e tombou feito um saco de laranjas, rolando sobre a máquina como a bolinha que era. Quando foi para a bicicleta, demorou um minuto para superar o peso nos pedais e quando foi dar o primeiro giro se atrapalhou e tirou o pé, que foi acachapado pelo pedal que vinha atrás, machucando o calcanhar de seu Lindalvo. Para completar o típico desastre, ele derrubou os pesos que tinha de carregar com as mãos sobre seus pés.
Naquela noite, Lindalvo chegou moído e triste em sua casa. Abriu a porta e falou: “Boa noite, meu amor. Tou morrendo de fome. Soprou ensopado do almoço?”, e então sentou-se na poltrona. O amor de seu Lindalvo era Mariana, uma mulher tão gorda quanto ele, mais nova uns dez anos (ele possuía quase sessenta), de cabelos curtos e esparsos - quase careca - e rosto ríspido. “Ensopado é o que deseja, meu a-m-o-r-z-i-n-h-o?”, perguntou com o falso carinho que enganava Lindalvo, sorridente por ter uma mulher tão boa. “Claro, minha coisa fofa :D”. Mariana veio se aproximando, rebolando sua bunda gorda, se inclinou sobre seu “coiso fofo” como se você fosse beijá-lo mas o surpreendeu com um: “VOCÊ VAI TOMAR CAFÉ PRETO COM UMA FATIA DE PÃO INTEGRAL!!!”. O rosto de Lindalvo se contraiu como se tivesse sido puxado por pinças e depois voltou ao normal. “A-a-a-a-morzinho... eu tou cansado e tenho fome”. “E PRECISA ARRUMAR UM EMPREGO, ALIÁS O ÚNICO EMPREGO QUE VOCÊ CONSEGUE TODO ANO E QUE ME ARRANJA DINHEIRO PARA COMPRAR MEUS POUCOS VESTIDOS DO ANO TODO! SE EU NÃO TIVESSE O TRABALHO NO SUPERMERCADO NEM COMIDA AQUI TERÍAMOS!!!!!”. E agora até o vaso de flores que ficava ao lado da poltrona voou com tudo e se espatifou no chão. Lindalvo, covarde, responde: “Tudo bem môzinho, he...”
E nessa dureza ele ficou pelos dois meses de academia a que teve se submeter. Sonhava, enquanto se exercitava olhando para o espelho que ficava na frente dos aparelhos de ginástica, com sarapatel, feijoada, lasanha, macarronada, acarajé, refrigerante, sundae, sorvete de oito bolas, pizza de calabresa, picanha, churrasquinho na brasa, doce de leite, doce de banana, doce de goiaba, doce de caju (ai, o doce de caju!), vatapá, caruru, farofa de água, strogonoff, moqueca de camarão, cheeseburguer, misto, tanta coisa ele queria. Após o Natal ia justificar a mulher que tentaria ser Rei Momo, para ela o presentear com banquetes dignos de uma verdadeira pança. Tanta comida o deixava muito esperançoso...

Lindalvo descobriu então seus olhos e encarou seu peso... estava bem mais magro! Mas não o suficiente... faltavam dois quilos para alcançar a marca necessária exigida pela OMS. O velhinho caiu de joelhos e chorou tsunamis de lágrimas desesperadas, parecendo um neném. O agente de saúde que era responsável pela sua ficha, um jovem de uns 23 anos, veio acudi-lo. “Calma meu senhor, deixe-me ver seu peso”. “Estou dois quilos acima... Oh, não poderei continuar sendo um bom velhinho... Buááá”. O jovem o acarinhou e falou: “Que é isso, meu bom velhinho? Como falam os artistas, o show não pode parar. O que são dois quilos a mais? Pode sair pela porta, e faça de conta que tudo rolou bem por aqui ;D”. “Mas é um milagre natalino... Oh Deus! Muito, muito obrigado!”, abraçou o menino, “Precisava muito deste emprego, obrigado garoto... Vou saindo”, e ele foi andando feliz até a porta. O garoto sorria dentro da sala, feliz. Pegou o relatório de seu Lindalvo e assinou como se ele tivesse os 78 kg exigidos. E aí, foi até uma gaveta e tirou um porta-retrato. Emoldurada, a imagem dele com um homem vestido de Papai Noel. Era seu Lindalvo. E agora, seus filhos iriam também ter a chance de encontrar o bom velhinho.

Friday, December 22, 2006

Lar e Liberdade

Vou juntar dinheiro para ter uma bela casa,
Onde meus futuros filhos possam viver,
E eu possa escrever tranquilamente.

Vai possuir um portão azul muito bonito,
encimado de cerca elétrica pomposa;
e no jardim,
paraíso meu e do meu amor,
um cão-guarda feroz nos fará companhia.

Nos finais de semana ocorrerão festas,
e os amigos inundarão minha bela casa,
após terem suas identidades aprovadas na
guarita.
Pularemos de felicidade,
com cautela para os vizinhos não acordarem.

Mais à noite,
quando todos tiverem ido,
estarei a sós com minha namorada.
Iremos para a cama nos divertir,
temerosos da camisinha furar.

Após o gozo sorriremos e murmuraremos:
"Como é bom ter a liberdade para te amar"

Sunday, October 29, 2006

Poesia-Bêbada de um apaixonado

Quero um fluxo de palavras, senão belas
Ao menos enganosas, disfarces da minha Arte.
Uma boa ilusão salva uma vida,
E como poeta quero iludir a dor, a fome e a miséria,
Cantando o Amor que não existe, abortado
Pelo medo, pela solidão e pelo nonsense do sentido.

A cura para os meus anseios repousa imediatamente ao meu lado,
Separada de mim por uma muralha de carne com concreto,
Acimentada por uma ideologia mais antiga que meu nascimento,
E o nascimento de meus avós e tataravôs, e por seres anteriores a eles.

O que faço agora, bêbado como um mendigo de rua,
Acreditando que a aura etílica me deu forças para me livrar
Dos meus horrores mais internos; do meu descompasso ao falar,
Do blackout mental que me acompanha desde meu nascimento,
E que infectam a área não regular da minha alma,
Teimosa essência que vive a me gritar que no fundo, bem no fundo,
Este não sou eu.

Como posso imaginar que o prazer e o Céu estão tão próximos,
E eu, que me ajoelhei em entrega total e não titubeei em rogar promessas de amor,
- que não caberiam nesse verso, nem em centenas de outros – ,
mas não pareço ser capaz de cumprir agora, bastando-me apenas,
Escalar a fronteira que estás a me dizer: não!, porém que não pode ser maior
Que o meu Amor.

Minha alma, classificada como imortal e grandiosa,
Não é mais que um leve gracejo e um lampejo de criatividade.
Eu me perco no rio dos martínis, na cachoeira dos vinhos e nas torneiras de vodka.

Penso em quem realmente sou... Sei que sou um amnésico por nascença,
Condenado a esquecer meus momentos mais intensos, onde residem aquelas emoções,
Que nunca voltam para nos lembrar o quanto esquecemos de nós mesmos.
O quanto ainda esqueceremos, a cada hora e minuto passados, em levas apressadas de anos.

A dor não cresce tanto em meu peito,
Pois troquei o conforto das minhas dores,
Das minhas feridas, e dos meus sonhos quebrados,
Desiludidos, deturpados, degenerados, destruídos,
Por este poema, podre e pustulento,
Que não engrandece nem mesmo uma metáfora.

Este poema foi programado para morrer esta noite,
Junto com os restos dos meus sonhos e fantasias,
Determinados para exaurir-se esta noite, pois assim ordena,
Aquilo que reside em minhas profundezas,
Seja lá coração ou alma, espírito ou energia,
Moradora de plenos poderes sobre o ser que pulsa todo em mim.
Destarte, sou eu mesmo.
Hoje sou passageiro,
Como o álcool que caminha em minhas veias,
Como as dores que me cortam e recortam,
Como a excitação exasperante que me grita.

Adentrar os reinos do teu corpo... Isso sim seria eterno!

Wednesday, October 18, 2006

Quadrinhos da Gota Serena

Para os que desconhecem obras de quadrinhos nacionais, aqui vai uma recomendação de uma leitura fascinante. A obra é Estórias Gerais, do roteirista Wellington Srbek e do desenhista Flavio Colin, que teve primeira edição lançada em 2001.
O livro traz seis capítulos recheados de histórias do sertão brasileiro, onde não faltam doses elevadas do misticismo e da simplicidade dos sertanejos, rivalidade entre jagunços comandados por poderosos coronéis e a influência dos padres sobre o povo, que beira ao medievalismo.
Até agora, só devorei o primeiro capítulo da história, Antônio Mortalma, que traz um jornalista da “cidade grande” atrás de histórias ocorridas em um vilarejo de Minas Gerais que é assombrada por ataques de cangaceiros liderados por um lendário homem, temido por todos os moradores da cidade.
Além da linguagem típica dos personagens sertanejos, outra característica bem reproduzida da cultura desse povo é a estética dos desenhos que se assemelha à das ilustrações encontradas em cordéis e que inserem o leitor no ambiente e no clima do interior brasileiro.
Estórias Gerais é baseado na obra-prima de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, e em diversos contos e novelas que retratam a vida típica no interior. A HQ foi indicada como material didático obrigatório em alguns estados brasileiros e, portanto, atingiu alto nível de sucesso.
Quem quiser o material, mas não encontra ou não tem dinheiro, pode procurar em http://hdvirtual.blogspot.com


Monday, October 16, 2006

Fim de uma era

Bem, meus desesperos se foram após uma longa tortura... Estaria a sorte me sorrindo? Difícil afirmar, mas por um dia, ao menos, posso me largar em largos sorrisos. Pra fazer a alegria da criançada trago um link com uma notícia quente: http://www.universohq.com/quadrinhos/2006/n16102006_03.cfm

E, pra dar o troco na poesia triste, apresento-lhes:

Ensacando tempestades

Venham atrás de mim, arautos do destino, que me encontro em total plenitude.

Não há mais ventos virulentos a temer,
Pois agora a força da natureza faliu.
Quero me lançar por um cano e me diluir
No universo.
Minha alegria está em tudo, sou do mundo todo.

Retomo o prazer da vida, e ponho fim ao caos,
Que o clima ruim trouxe, de repente.
As tempestades vão morrendo, empurradas
Do barco,
Que contém a minha vida e minha amada.

Os milagres, enfim, acontecem...
Em momentos simplórios,
Sentados num sofá,
Que parece um globo isolado do mundo.

Saturday, October 14, 2006

Revisão

Revisão

Era uma vez que ela era uma pedra que gritava alto e pulava feliz quando dançava a valsa e ria alto da serra-precipício que chega mais forte aqui que se diz tudo que a fazenda tem de comum com o colibri que voa feliz e assim pra sempre voando até chegar no fim do dia da vida de cada um que chora a qualquer hora que a bela e normal como filmes que passam na TV que mostram aparelhos modernos do nosso século que já morreu a anos e que ainda vive debaixo da água que cobre o vestido bonito e azul do céu que fica cinza como um fio do cabelo caído do botão amarelo que é a cor do bebê morto com tiros do céu que é transparente como a furta cor dos seus olhos que nada podem ver dentro do vazio de ninguém que jamais soube ler, mas que toca violino muito bem onde folhas escritas estão em branco voando na cabeça das bonecas de vidro da porcelana que se parte em cima do carro velho com mil cacos de plástico espalhados no corpo amarrado e azul de quem não tem amor e corre depressa para nada alcançar no fim da estrada de vento cheia de ciscos vivos com facas que devoram seu corpo dentro da caixinha de música da sua infância que tinha a cor da mancha do asfalto colorido-desbotado onde pessoas comem suas esperanças alimentando-se de nada em plena cidade onde nada é tudo.
Patrícia Paixão Martins
26/06/06

Friday, October 13, 2006

A tempestade parece se aproximar em meio a dias irracionais, onde a tessitura do escuro além do umbral da porta se distorcem malignamente. Em alguns versos destilo minha confusão.

Tempestades a bordo

Minha amada, outrora te escrevi as linhas mais belas,
E agora retorno para falar-te que sinto medo,
De que nosso amor, tão possante, se desvaneça cedo,
Desfazendo nossas juras e as verdades contidas nelas.

Vivemos uma historieta romântica, uma fantasia tantalizante,
Mas agora a realidade tenta nos sobrepujar com a dor,
e o peso da responsabilidade fez nosso beije perder o sabor.
Parece o rumo à escatologia completa de nossa união fascinante.

Nenhuma de minhas palavras e canções foram vazias,
Não haviam como ser, pois fizeste retumbar meu coração,
Em uma marcha que ressoava sempre ao te ver, em adoração.
É impossível esquecer-te, tua face e bochechas macias.

Sei que parte do meu coração nunca mais será meu novamente,
Assim como parte de ti se desgastou no fulgor dos nossos encontros,
E se perdeu para sempre. De tão enamorados, nós fomos tontos,
Abrindo assim a barreira que nos separava do pecado eminente.

A vergonha se encerra em nós, sonhadores de uma outra época,
Em que não existiam doenças, dores, destruição, dúvidas ou desesperos,
Apenas os nervosismos e as ansiedades jovens, pequenos destemperos,
Comparados ao nosso fardo cruel, isento de súplicas.

Meu pequeno Amor, não desvies o teu olhar das minhas lentes,
Vê que ainda te amo, com a chama da eternidade da minha paixão atroz.
Com tua sinceridade, diga-me, de agora em diante, o que será de nós?
Minhas mãos estão contigo, preparadas para nossos atos penitentes.

Não deve haver, mesmo em um torpe mundo, erro que não se repare,
Nem mal que se arraigue tão fundo, que não possa ser decepado.
Ainda mais se o infortúnio foi por um Amor puro realizado.
Em minha descrença peço a Deus que com sua piedade nos apare.

O que será de nós?

Thursday, October 12, 2006

Meia-noite, momento em que os escravos da conexão discada - como eu - migram loucamente para a grande rede, onde ficam a esperar minutos a fio enquanto uma simples página abre, consumindo todo o prazer de estar conectado e remetendo o internauta marginal aos acessos de ânsia.
Inicio agora este blog meio desleixado, apenas como veículo para expôr minhas humildes opiniões sobre minha vidinha muito cheia de rotina, porque assim a quis.

Como introdução, eu gostaria de postar uma poesia da qual gosto muito, do norte-americano Allen Ginsberg e que sintetiza a eterna busca pelo Amor e pela compreensão que muitas almas humanas empreendem. Aí vai...

Canção
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano -
sai para fora do coração
ardendo de pureza -
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor -
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
- não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
- deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho -
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.